10 dezembro 2004

Sampaio. O antigo embaixador em Londres, Teixeira Gomes como P. R. disse que...

Um murro na porta, claro, trata-se do Embaixador Agapito:

«Meu caro! Ouvi Jorge Sampaio. E recordo-me muito bem da amarga constatação de Teixeira Gomes em Belém onde se sentia como ‘o Senhor da Cana Verde’. Você já viu que Sampaio pode ser o senhor das canas da Índia, senhor das canas de Senhorim, senhor de qualquer cana! Tudo, tudo menos senhor da cana verde!»

Briefing da Uma. Por amor de Deus, Simoneta. Noite dos Embaixadores no Café Martinho

Briefing da Uma. Inflação de briefings. Uma hora esperada com Carneiro Jacinto. Hora tardia com Simoneta Luz Afonso. «Não é o lugar que ocupamos que é importante, mas a direcção na qual nos movemos», teria repetido Oliver Wendell Holmes a propósito.

1 – Inflação de briefings
2 – Noite dos Embaixadores/António Monteiro
3 – Queda do governo

1 – (Quando é que o porta-voz das Necessidades faz o seu segundo briefing?) - «António Carneiro Jacinto marcou para dia 15, às 11 horas, o segundo briefing. Aguardemos porque as circunstâncias são interessantes e poderá muito bem acontecer que a um embaixador à frente do MNE, suceda outro embaixador...»

(Bem, isso é às 11 horas, mas às 12 há outro briefing no mesmo local...) - «É verdade. Também a presidente e pelos vistos igualmente porta-voz do Instituto Camões decidiu agora fazer um briefing. Simoneta fala às 12 após os esperados 60 minutos de António Carneiro Jacinto, pelo que, como eloquentemente diria o antigo presidente Américo Tomás, os 60 minutos de António Carneiro Jacinto são os minutos que preenchem uma hora, iniciando-se às 12 horas uma nova hora que, prolongada por mais 120 minutos, entrará numa terceira hora porque uma terceira hora terá os mesmos minutos que a primeira e ainda como a segunda. E como no final dessas horas que até os passarinhos desde os primórdios da humanidade sabem que têm 60 minutos, serão apresentados a Revista de Letras e Culturas Lusófonas (nº 17-18) o que significa que é um número duplo antes do n. 19 e depois do 16, sobre as "Relações Luso-Marroquinas, 230 Anos" o que perfaz exactamente dois séculos e trinta anos, e ainda o livro "Os Colaços, uma Família Portuguesa em Tânger", de Jorge Forjaz que não sendo um dos Colaços no nome, só por ser Forjaz é a garantia de que as horas de Tânger têm a mesma duração das horas dos Colaços em Lisboa...)

(... por amor de Deus! Suspenda-nos essa explanação! Vá direito ao assunto e diga-se como é que só agora que o governo cai é que Simoneta fala sobre a actividade do Instituto?) - «Ainda pensando com Américo Tomás, cita-se, a actividade é uma daquelas coisas que não podem estar paradas como se viu com os Colaços de Tânger e com os 230 anos luso-marroquinos, que só não são 426 anos porque a batalha de Alcácer Quibir foi muito antes e mesmo assim D. Sebastião começou a pelejar duas horas depois, a actividade do instituto já estava planeada antes deste governo que não caíu mas apenas antecede o que se vai seguir que pode ser o mesmo ou diferente, e a dr.ª Simoneta tem essa rara intuição de que todos os minutos passam, um a um até 60, perfazendo-se assim uma hora».


2 – (Mudando de assunto, vai haver uma Noite dos Embaixadores no Martinho da Arcada. Monteiro vai?) - «O ministro António Monteiro vai estar no dia 15, às 20 horas, na «Noite dos Embaixadores». Estão confirmadas 35 presenças de representantes diplomáticos acreditados em Lisboa, com a figura e obra de Fernando Pessoa em pano de fundo. Curiosamente os embaixadores do grupo da CPLP borraram a opa diplomática, à excepção de Cabo Verde e Timor-Leste.»

(Explique essa) – Não confirmaram as presenças.

(O do Brasil, está ausente?) - «Ausente, em compensação está o embaixador Mohammed al-Rachid, da Arábia Saudita»

(E o de Moçambique?) - «Ausente, em compensação está o embaixador da China, Ma Enhan)

(E o se São Tomé?) - «Ausente, em compensação vai estar o embaixador Samir Arrour, de Marrocos)

(Mas o de Angola vai estar...) - «Também não estará. Em compensação, cada hora tem 60 minutos e temos que terminar este briefing já»

3 – (Apenas mais uma questão: a queda do governo não vai perturbar a actividade diplomática portuguesa?) - «Como os senhores sabem, os embaixadores são nomeados pelo Presidente Sampaio e tal como nos Estados em que as instituições funcionam, a actividade é uma daquelas coisas que não pode parar...»

09 dezembro 2004

Briefing da Uma. Mesmo que não fosse a pedido de Medeiros Ferreira...

E pensávamos nós que Medeiros Ferreira andaria ainda a ler Teixeira de Pascoais! Nada disso! Parece que Notas Verbais entraram nos seus hábitos e mais parece que sofreu com a nossa paragem de retempero com justa causa. Pois bem, mesmo que não fosse a pedido de Medeiros Ferreira, também o Briefing da Uma regressa amanhã, Sexta-feira. E com issso, vão igualmente reentrar em cena os nossos Personagens & Intérpretes. Quem não conhece o Embaixador Agapito que até José Sócrates pretende recrutar para as Novas Fronteiras onde, segundo se diz, já figura o Embaixador Casamia? E quem não preza o ministro plenipotenciário Charles Calixto a quem bastou uma travada síntese para fazer cair Martins da Cruz, e, que depois, como se viu, foi o único diplomata português que com a sua peculiar ovação provocava a emoção de Teresa Gouveia até à lágrima furtiva?

Notas Verbais. Como sempre.

Reentrada.

Há paragens que são boas, retemperam e proporcionam aqueles balanços que alimentam a razão como nada. E serviu este hiato para se constatar que o Ministro António Monteiro está deveras isento das partes gagas do governo, conseguiu manter o MNE à margem das circunstâncias efémeras do poder e, sobretudo, não foi protagonista de episódios que desacreditam qualquer executivo deste mundo. Até agora foi um bom embaixador de Portugal acreditado nas Necessidades e quando precisamente estava a chegar o momento de se lhe exigir mais que a intervenção sábia ou que a gestão pacificadora, eis que tem de fazer adeus a um lugar que por enquanto ou ainda é dos poucos símbolos de soberania portuguesa e dos já escassos clarinetes que podem tocar a afirmação externa do Estado sem fífias. Como embaixador acreditado nas Necessidades, António Monteiro – terceiro Ministro dos Negócios Estrangeiros nos dois anos deste governo de dois tempos – não tem sido um contratempo e trabalhou sem a «concorrência» ou sem competição calada do gabinete do Primeiro-Ministro, como ocorreu com Guterres e com José Manuel, ou, melhor dizendo, com os respectivos assessores que não raras vezes actuaram como ministros sombra dos Negócios Estrangeiros dentro do próprio governo (coisa megalómana que já vem dos tempos de Cavaco). António Monteiro tem dominado as matérias, cumpriu a agenda das obrigações internacionais sem espalhafato e preencheu a hierarquia das Necessidades com figuras de competência e não com figuras de cera, como há muito não se verificava na Casa. Não terá resolvido bem certas colocações de embaixadores, é certo; terá confiado em demasia na bondade de intenções que normalmente faz ninho nos institutos autónomos, também é certo. Mas passa e foi um benefício da dádiva (não é gralha, é mesmo dádiva) para este governo que passa.

É claro que, se continuasse, mais semana menos semana, mais mês menos mês, ter-se-ia que questionar sem dúvida que diplomacia cultural é esta, a de Portugal que pelos vistos mal ouviu uns tambores do sertão até já se envergonha da palavra lusofonia; que diplomacia económica é esta, a do Estado que não ata nem desata e não vai além dos seminários, dos encontros e das reuniões à porta fechada; que política de cooperação e de ajuda ao desenvolvimento é esta que não aparece; que relações com Espanha são estas como se Portugal fosse a Catalunha ou a Galiza; que afirmação é esta na União Europeia que não vai além da cenoura do Tratado, sabendo-se como devemos rir bem desde o conde Lautréamont quando todo o figo come o seu burro.

É precisamente quando aqui em Notas Verbais, após merecido descanso, se arregaçava a camisa, se estendia o braço a jeito para o teclado e os dedos se preparavam para destinar os fumos do écran ao ministro António Monteiro, eis que ele está de saída. E nós de reentrada. À espera do senhor que se segue...

Carlos Albino

06 dezembro 2004

Quinta-Feira. Regressamos.

Ao contrário do que alguns, alegres, esperavam e do que outros, tristonhos, já imaginavam, Notas Verbais regressam na Quinta-feira. E a culpa é do José Sócrates que, quanto a política externa e diplomacia, só falta recrutar para as suas novas fronteiras, o independente Andrade Corvo que é tão promissor como Jaime Gama... Uma tristeza. Uma tristeza a somar à «experiência internacional» de Guterres.