20 novembro 2008

Pérez-Reverte mete a foice em seara alheia

ESTRABISMO ESPANHOL Com a devida vénia, vamos transcrever em Notas Formais (para que conste), a notícia do diário Público (pág. 6) com a parte essencial respigada da Lusa, em que se dá conta de que o escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte «defende a união ibérica», com um chorrilho de disparates como o de afirmar que «há uma Ibéria indiscutível que está entre os Pirenéus e o estreito de Gibraltar, com comida, raça, costumes, história em comum e as fronteiras são completamente artificiais»... Portanto, no que nos interessa, para quê uma diplomacia portuguesa? A espanhola não basta?

Ora, o escritor espanhol está atrasado no tempo. Ele ainda tem o anti-catecismo, se é que não seja mesmo o catecismo das Tortesilhas na cabeça, e tem uma visão estreita do mundo quanto a comidas, raças, costumes, história comum e fronteiras artificiais: hoje, com a facilidade que há em dar a volta à Terra (qualquer um, é Magalhães), chega-se ao mesmo ponto de partida no paralelo ou no meridiano com a conclusão que o espanhol Arturo Térez-Reverte confina à sua estreita faixa entre «os Pirinéus e o estreito de Gibraltar» - embora Gibraltar não fique em Sines, muito menos em Leixões, e com isto sugerindo-se que Pérez-Reverte faça ao menos uma leitura do mapa sem estrabismo ou com a sua Ibéria deitada, no olhar continental próprio da meseta.

Admite-se que Pérez-Reverte queira fazer escola com Saramago e que até se lhe proporcione comida, raça, costumes, história em comum e fronteiras artificiais na Casa dos Bicos. Mas de Saramago, a gente trata, é cá da terra e vai-se perdoando.

O que não se perdoa a Pérez-Reverte é se, por exemplo, escritores portugueses e depois políticos (porque não?) começam a usar os mesmos métodos estreitos, defendendo que a Catalunha, o País Basco, por aí fora, têm direito às comidas próprias, às raças próprias, às histórias próprias e a fronteiras que não sejam artificiais.

Pérez-Reverte meteu a foice em seara alheia, e faz revolver pesadelos em que seria melhor não tocar, nem ao de leve.

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