26 julho 2011

A pausa deu para comprovar:

    Verdade
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

1 comentário:

patricio branco disse...

enorme poeta, poesia a sério.
Há anos passou nos cinemas um belíssimo documentario brasileiro-alemão sobre a memória e os sitios de CDA, creio que "o amor natural".
Agradeço a oportunidade dada de ler este poema.