21 abril 2011

Antes que a embaixada da Finlândia emita nota oficial...

Foram oito os que perguntam hoje para o e-mail de Notas Verbais sobre "quando é que Steinbroken foi representante da Finlândia em Lisboa", um dos curiosos (secretário de embaixada, a acreditar no pergaminho invocado...) chega mesmo a precisar o esquisito interesse em saber "se esse diplomata esteve em Lisboa antes ou depois de 2002", e outro vai ao ponto de referir criticamente que "as referências a um diplomata de país com os quais Portugal tem relações amistosas são manifestamente ofensivas e as Notas não deveriam alinhar nessa campanha"...

Pelos vistos não foi suficiente a clara descrição de que se trata de um personagem criado por Eça de Queirós em Os Maias, romance publicado, pela primeira vez em forma de livro, em Junho de 1888... Ficção pura, portanto. E tanto é assim que a Finlândia apenas teve o seu primeiro diplomata acreditado em Lisboa, em 1920, e até 1945 todos os seus representantes o foram a partir do representante residente em Madrid, e nem por sombras nas cocheiras alugadas por Afonso da Maia, como a imaginação de Eça situou nos finais do século XIX.

Lá por isso, refira-se que a embaixada da Finlândia colocou no seu site oficial a relação dos representantes de Helsínquia na capital portuguesa, em quadro que se reproduz, onde obviamente não se encontra nem se poderia encontrar qualquer Steinbroken. Mas que pode haver parecidos, pode haver...

Vejamos então quais e quando os verdadeiros finlandeses que passaram por Lisboa sem ficção:
A partir de Madrid
Onni TalasDelegado interino  Lisboa/Madrid
1920-1921
Yrjö Saastamoinen Encarregado de Negócios a.i.Lisboa/Madrid
1921-1923
Georg (G.A.) GripenbergEncarregado de Negócios a.i.Lisboa/Madrid
1923-1929
Niilo Orasmaa Encarregado de NegóciosLisboa/Madrid
1929-1933
George WinckelmannEncarregado de Negócios a.i.Lisboa/Madrid
1933-1934
Encarregado de Negócios1934-1940
Enviado1940-1945
A partir de Haia
Aarno Yrjö-KoskinenEnviadoLisboa/Haia
1951
Aarne WuorimaaEnviado    Lisboa/Haia
1951-1959
Helge von KnorringEnviado  Lisboa/Haia
1959-1964
A partir de Berna
Olavi MunkkiEnviadoLisboa/Berna
1964-1965
Ragnar SmedslundEmbaixadorLisboa/Berna
1965-1967
Björn-Olof AlholmEmbaixadorLisboa/Berna
1968-1970
Martti SalomiesEmbaixadorLisboa/Berna
1970-1974
Kaarlo MäkeläEmbaixadorLisboa/Berna
1974-1976
Joel ToivolaEmbaixadorLisboa/Berna
1977-1979
Em Lisboa (residentes)
Pekka J. KorvenheimoEncarregado de Negócios a.iLisboa
1975-1978
Pentti TalvitieEmbaixadorLisboa
1979-1984
Lars LindemanEmbaixadorLisboa
1984-1985
Pekka MalinenEmbaixadorLisboa
1985-1988
Olli AueroEmbaixadorLisboa
1988-1991
Dieter Vitzthum von EckstädtEmbaixadorLisboa
1991-1997
Matti HäkkänenEmbaixadorLisboa
1997-2001
Esko KiuruEmbaixadorLisboa
2001-2005
Sauli FeodorowEmbaixadorLisboa
2005-2009
Asko Numminen (atual)Embaixador2009-

6 comentários:

patricio branco disse...

interessante investigação. Interessante tambem ver que a finlandia só teve embaixadores residentes a partir de 1975.
Antes, desde 1920, os representantes foram-se distanciando a pouco e pouco de lisboa, como que com medo deste pais do sul, e da espanha, como se já fossem paises doutro continente. De madrid (de nivel baixo) passam para haia, depois para berna! E por aí continuariam possivelmente.
Mas se eça fala do ministro da finlândia, seria porque então, nos 1880s, o pais teria legação em lisboa. Não seriam steinbrokens, claro, nome inventado para o personagem (nome pouco finlandês? mais parece de alemão ou sueco).
Talvez a embaixada possa tambem esclarecer se havia então, fins sec xix, legação em lisboa.
Porque teria eça escolhido a finlândia para pôr um diplomata em cena? Mas veio mesmo a propósito, termos onde ir buscar um steibroken, para os tempos que correm.

Alcipe disse...

A Finlândia só se tornou um país independente em 1919. Antes era uma província da Rússia.

a) Alcipe

NV disse...

Província, talvez nem tanto assim. A Finlândia, após ter sido um domínio sueco, com a tomada do território pelas forças militares de Alexandre I transformou-se em 1809 num Grão-Ducado autónomo dentro do Império Russo. No epílogo de sangrenta guerra civil, a independência do país foi declarada em 6 de dezembro de 1917 e a independência do país foi reconhecida pelo Tratado de Brest-Litovski, firmado em 3 de março de 1918 e. a 9 de outubro desse ano, o senado finlandês escolheu o alemão Federico Carlos de Hesse como rei. Monarquia de pouca dura, pois em dezembro do mesmo ano a Finlândia elegeu Kaarlo Juho Ståhlberg como seu primeiro presidente.

patricio branco disse...

porque falará então eça no ministro steinbroken da finlandia se este não era um país independente e portanto não teria legações no estrangeiro, no sec xix? Precisamente por isso, por não existir? Liberdade literária, para não melindrar um país real, pondo como personagem de romance um seu diplomata?
E a referencia aos reis fortes da finlandia?
Algo para investigar.

NV disse...

Oh Patrício Branco! A referência a rei da Finlândia foi uma deferência ao grão-duque que não mexia palha de política externa que estava nas mãos do czar. E quanto ao ministro da Finlândia em Lisboa, obviamente que toda a imaginação é premonitória...

Helena Sacadura Cabral disse...

Delicioso post e não menos deliciosos comentários.
Se o Eça nos estiver a ler, estará divertidissimo com o sururu da carta que o nosso Embaixador postou!
Como a reproduzi no meu blogue, dizem-me que o João da Ega é que anda muito preocupado porque não há meio de se lembrar da carta...