19 abril 2013

A colombiana omissão da moda

O Presidente da República consegue por vezes produzir uma frase, um dito que ora salva, ora mata. Quando mata, percebe-se que não é o Presidente da República que escorrega, mas sim o indivíduo, a pessoa que lá está dentro, e ainda assim se evita ser cruel na crítica, para não ferir a instituição unipessoal. Vem isto a propósito da omissão do nome de José Saramago, na Colômbia, quando o Presidente da República se esforçou por invocar escritores portugueses de nomeada. A omissão foi de Cavaco Silva, foi ditada pelo seu fundo, porque se a omissão tivesse sido do Presidente com a sua questão e o seu index pessoal à parte, por respeito pela função de Estado, o qualificativo não se diria nem se escreveria aqui. Já quanto ao que indivíduo omitiu, a palavra exata, embora cruel, é mesmo esta: mesquinhez. E estamos, estou à vontade para dizer isto. Fui amigo de Saramago, tratávamo-nos por tu desde longa data, por efeito de uma camaradagem jornalística dos tempos do Bairro Alto (ele no Diário de Lisboa e eu no República), mas sempre, sempre, quando se impunha, a crítica era irmã gémea da frontalidade, por vezes acérrima nas matérias não literárias. Creio que Saramago ouviu de mim palavras que os agora omissivos nunca lhe disseram de frente. Não foi por aí que a amizade, o respeito recíproco se perdeu, e sobretudo o meu respeito pela sua obra mais assertiva, original e criadora de emoções. Portanto, estou à vontade para escrever estas linhas livres de cultos tardios ou de vassalagens funerárias. E assim se diz que, Cavaco Silva que, num dia, fez a profissão de fé de tornar Portugal “moda” na Colômbia, no outro dia omite o nome que pela primeira vez e de forma indelével, com o Nobel, introduziu o nome de Portugal na mesma Colômbia antes de qualquer empresário, de ficção ou não, cujas obras, pelos vistos serão as únicas que o Presidente lê nesse género literário maior que é a literatura de supermercado. O mesmo dito salvou num dia e matou no outro. Foi mesquinho.

2 comentários:

NV disse...

Independentemente do que se pense de José Saramago, pessoa e obra, há factos que não podem nem devem omitidos sobretudo pelo Presidente da República. Pegando nas suas palavras, Portugal não ganhou um cêntimo com essa omissão, antes pelo contrário.

Anónimo disse...

Lembro-me de, numa das idas de Saramago a Bogotá (inícios de 2000),ver o auditório repleto com cerca de 2 mil pessoas sentadas e mais umas dezenas, de pé, nas laterais. Lá fora muita gente. Saramago, já sentado, levantou-se e pediu ao Organizador do evento para franquear as portas, para deixar entrar o maior número possível de interessados em ouvi-lo. Foi um tremendo Sucesso. Bons tempos de luta, mas com êxito.