21 maio 2013

A arte da diplomacia e os artistas

O adjunto ou assessor diplomático de um gabinete, seja na Presidência, no parlamento ou no Governo, não é mais um técnico ou especialista a juntar a outros. Na carreira dos especialistas, sem dúvida que o critério predominante na seleção é a ciência. Na carreira diplomática, não conta apenas a ciência, conta fundamentalmente a "arte". E esta arte apenas vem com o tempo, com a experiência, com o calo. Leva anos, pelo que, quem seja de bom senso não se oporá a que o Estado financie a formação de um diplomata. É bom e tanto melhor será que um diplomata inicie a sua carreira com o maior acervo científico possível, mas este acervo, por si só, não faz um diplomata. Ele tem que aprender a arte, e para isso precisa de tempo, é necessário tempo. Também não se está a sugerir que o tempo faz um diplomata, ou que não haja diplomatas que, por mais tempo que estejam alojados na carreira e nela vão prosseguindo pela promoção automática ou pelo jogo de empenhos que fogem ao escrutínio, não passam da cepa torta. Há de tudo. Um diplomata feito é aquele que ostenta ciência e arte, sendo um bem precioso para o Estado, no qual vale a pena investir e confiar, no interesse público. Daí decorre que um diplomata colocado num gabinete, sobretudo num gabinete que mexe com questões de soberania, não deva ser visto e muito menos estigmatizado pela cor política ou facção partidária que decora tal gabinete. O diplomata feito, em qualquer circunstância serve o Estado, não serve um grupo, uma pessoa, uma visão, pelo que não choca, antes pelo contrário será de aplaudir que os gabinetes cooptem diplomatas feitos e não por fazer, porque um diplomata feito não é contaminado pela inevitável confiança política e pessoal de quem o nomeia para junto de si. O histórico dos diplomatas que foram adjuntos ou assessores comprova isso, embora, a par, também comprove que um diplomata não se faz de gabinete em gabinete, não ganhando com isso a arte da diplomacia, sendo artista. Diremos mais.

5 comentários:

Anónimo disse...

Concordo com parte da argumentação. Tudo leva o seu tempo a maturar, para o bom ou para o mau. Mas embora o calo seja importante, a forma como a mão manuseia também. E a precocidade no talento também existe. Prova disso é a fome que existe na casa pelos jovens "índios" e o reconhecimento da capacidade de trabalho, a tenacidade e mesmo maturidade - não se mede aos palmos - que as chefias reconhecem nos jovens ex-adidos. E eles têm qualidades que contam mais que muita experiência junta - como já disse, a idade não é um posto, e muita boa gente não trocava um 3º secretário por um conselheiro com muitos anos de casa. No final de contas, em histórias de nomeações - e como em tudo -, os critérios não são absolutos. E podem perfeitamente haver casos raros em que o nomeado é galardoado com o prémio por puro mérito. E deixem-se de politiquices.

Anónimo disse...

O pior que pode acontecer na carreira é forjar-se uma espécie de conflito generacional. Todos perdem em algum momento. Novos e velhos.

Anónimo disse...

Tudo muito correto. No entanto, importaria lembrar que as funções exercidas por diplomatas em gabinetes estão também hierarquizadas, havendo posições para as quais é exigida mais ou menos experiência. Os critérios de escolha deverão, portanto, adequar-se à função a desempenhar. No caso referido num post recente do Notas Verbais, e que provocou alguma discussão, trata-se de uma nomeação para o gabinete do PM mas para uma posição júnior, integrando um conjunto de diplomatas que, entre outras competências, também terão o necessário "calo". O 3º secretário não terá sido nomeado pela experiência, mas foi seguramente por um conjunto de competências que lhe são reconhecidas e das quais não parece justo duvidar sem conceder o beneficio da dúvida. Por último, gostaria de manifestar alguma estranheza pelo destaque dado a esta nomeação em concreto. Recordaria que do concurso do visado já é a 3a nomeação para gabinetes - com a 4a a caminho - sendo que existiram casos em que as nomeações ocorreram antes da confirmação como secretários (e da consequente avaliação da aptidão para a carreira diplomática). Numa linha de coerência, esta nomeação também não devia ser notícia.

NV disse...

Sobre este reparo, que é legítimo, importa esclarecer:

1. Aqui, nas NV, não se fazem notícias, fazem-se registos e comentários.
2. O registo da nomeação não foi um ato de exceção noticiosa. Registou-se apenas o facto, nem foi feito comentário.
3. Sobre nomeações anteriores, não houve registo pura e simplesmente devido à paragem das NV, por motivos imperiosos, designadamente saúde.
4. As reflexões que estamos a publicar sobre a questão das nomeações, discutíveis como todas as reflexões, não visam um alvo. São mero escrutínio de critérios que até vêm de longe.

Anónimo disse...

Agradecendo o esclarecimento e a oportunidade de participar na discussão, referiria que:

1. Não se pretendeu considerar o post como sendo uma notícia em sentido literal, mas notar que a nomeação em causa não seria digna de especial registo (uma vez que não se trata de um caso inédito nem isolado);
2. Não tendo sido feito um comentário, resultou perceptível para alguns leitores, nos quais confesso que me incluo, uma crítica implícita a uma nomeação específica (que entretanto o NV já esclareceu não pretender fazer, mas que alguns comentadores aproveitaram);
3. Não se pretendeu pôr em causa as nomeações anteriores, às quais se deve aplicar a mesma lógica de presunção de competência e adequação. Lamenta-se, obviamente, a paragem forçada do NV, sobretudo pelos motivos referidos;
4. O contributo crítico do comentário pretendia precisamente adensar a discussão alertando para a necessidade das nomeações serem analisadas no contexto do que acrescentam aos gabinetes que integram. Tratando-se de equipas, não parece correto procurar uma sobreposição de competências e experiências, devendo antes procurar-se a complementaridade.